domingo, 29 de março de 2009

Babel

Sento-me em uma mesa, que fica ao lado do departamento de estudos eslavos onde, dentro de no máximo uma hora, vou ter aula de (t)checo. A mesa não é a única. Fica num corredor comprido, com algumas outras mesas. As pessoas ficam ali estudando ou, então, no computador. Eu tiro uma apostila de psicolinguística e começo a ler sobre as afasias de Broca e Wernicke e aquilo verdadeiramente é um saco. Por essa razão, qualquer movimento tira a minha atenção. Passam pessoas, outras conversam sobre eu não sei o quê. Na minha frente aquilo que era uma mesa vazia se enche com a chegada de um casal. Um rapaz muito loiro de olhos bem claros, muito branco, não tão alto e bem magrinho. A rapariga (ops… não estou ofendendo ninguém!) é uma típica portuguesa: cabelos lisos até a altura dos ombros, num brilho de dar inveja. Tem os olhos grandes, expressivos e castanhos, é baixa e bem magrinha. Conversam. Minha atenção então se prende a eles quando percebo que o rapaz não é português. Sinceramente não era capaz de identificar de onde vinha. Em se tratando de sua loirice, bem podia ser um estudante Erasmus que já fala português muito bem, já que a conversa dos dois flui bastante. Mas, estranho, era que eles conversavam com uma intimidade que não existiria entre uma jovem portuguesa e um estudante acabado de chegar de outro país. O português dele era muito bom. Seria brasileiro? Não. Ele fala em tu corretamente conjugado, usa palavras como gajo(cara), pois, ya, malta(galera) e fala “tás a ver?”. Bem, mas isso eu também já faço… Será que ele é português de alguma outra região, lá dos “Trás dos Montes” onde dizem que se fala tão diferente? Tento notar sinais claros de português do Brasil. Observando seus o’s e a’s noto que são bem abertos, mas não poderia ele ser do sul de Portugal? Tento então encontrar aquele que é o maior de todos os sinais de brasileirismo na língua portuguesa: os djias e tchias. Mas não encontro. Nem mesmo um gerúndio. E ele faz o x no final dos plurais, como os cariocas. De onde diabos vem esse cara? Segundos antes de a minha língua, já coçando, perguntar-lhe de onde vinha, o telefone dele toca. Ele atende:

- Alô?

Brasileiro. Brasileiro com certeza absoluta. Os portugueses não atendem o seu “telemóvel” dizendo alô (apesar de que alguns dizem que sim, mas eu não concordo). Dizem “Tô sim?”, indubitavelmente. Prefiro confirmar. Espero. Ele desliga. Olho pra ele e, já rindo, pergunto. Ele diz: “Sim, sou do Nordeste. E você?” Explicam-se então a não presença dos tch’s e djs’s antes da vogal e os x em final de palavras com s. Ele mora aqui há 4 anos, com sua família. Essa característica é bem brasileira, e confesso, adoro: a gente descobre a vida inteira da pessoa, em cinco minutos de conversa. Ele acha que não perdeu o sotaque de forma alguma e a sua amiga portuguesa concorda. Mas qualquer brasileiro da gema teria dificuldades em confirmar que ele é brasileiro. Como eu tive. E olha que a minha avó já diz que eu já estou falando de uma forma diferente. Lembro de uma história que ouvi aqui, de um português que vive há muitos anos no Brasil e que no Brasil é, e sempre será, o “Manoel da padaria”, por causa do sotaque forte. Mas se o Manoel vier a Lisboa com certeza já será considerado “brasilairo”. 

Isso é a Koiné, meus caros amigos. A coinização é a eliminação de traços dialetais que dificultam a comunicação, que são diferentes da língua que é falada na sociedade onde o falante se inseriu, formando dialetos. O português do Brasil é, desde sempre, o resultado de uma koiné, já que somos a mistura de várias raças e, consequentemente, de várias línguas. Mesmo o português, também começou com a mistura do Latim com línguas locais e algumas pitadas de arabismo. Well, assim é das Leben, viž? Ao final da conversa, levanto-me e vou para a aula de (t)checo. Talvez, um dia, com tantas línguas na cabeça, alguém que me vê pela primeira vez também não vai reconhecer de onde é que eu venho. Eu e o meu português koinizado.

10 comentários:

  1. Não bonitinha, vc é e sempre será brasileira!!! No jeito, no falar, no andar, nos quadris (hahahahahaha!!) e no pensar, especialmente, e graças a Deus!!!!

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  2. Que interessante este teu texto. Eu também tenho essa mania de tentar descobrir de onde são as pessoas, qual a região, qual o país, etc. É uma coisa um bocado típica de quem tem formação em línguas, não é? Já deu para perceber a minha nacionalidade? Sou portuguesa, claro, mas descobri o teu blog através do blog da Pati, que por sua vez chegou ao meu através de outro. Este mundo virtual é uma loucura!
    Bjs

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  3. Hoje passei apenas pra mandar uma beijoca :=)

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  4. Impossível não ler este post e não querer comentar, fiquei com algumas urticárias no final do texto rss e se eu não escrever agora, não escrevo mais. Desculpa ser por aqui , pode apagar depois se quiser, mas eu prefiro que não o faça, pois acho que daria uma discussão interessante... Vamos lá:

    1) "A rapariga (ops… não estou ofendendo ninguém!) é uma típica portuguesa: cabelos lisos até a altura dos ombros"

    Kellzinha, você corre o risco de estar fazendo exactamente o que você sempre critica aqui no seu blogue: generalizações, etiquetas, banalização de clichês, etc. É muito complicado dizer que alguém é "típico" por isso e por aquilo, quando fazem connosco, a gente fica puto né? Pois é, imagina o que uma "tuga" que lê isso vai pensar? O mesmo vale para a última frase do comentário da Lêle...não fomente alusões xenófobas aqui, vc sabe que muita gente lê seu blogue e isso não fica nada bem para a "linha editorial" do seu Koiné.

    2) "Seria brasileiro? Não. Ele fala em tu corretamente conjugado, usa palavras como gajo(cara), pois, ya, malta(galera) e fala “tás a ver?”. Bem, mas isso eu também já faço"

    Primeiro que conheço muito brasileiro que usa a 2ª pessoa correctamente, meus pais por exemplo. Em algumas regiões do Nordeste usa-se muito, e sistematicamente, o uso da 2ª pessoa.Segundo que acho que vc não deve afirmar isso com tanta veemencia porque não é verdade.E já falamos sobre isso. Entendo seu comentário, porque a 2ª pessoa quase que não existe no nosso amado país, mas 200 milhões de pessoas são muitas para po-las no mesmo saco. E o "tas a ver?" que a senhora usa, não é nada mais que a 2ª pessoa flexionada ali no "estás"...see? Lembrei quando você disse há uns dias na cantina para o Alosan que achava ridículo eu usar a 2ª pessoa quando falava com (alguns) portugueses.Fiquei meio chateado na hora mas não esquentei.Agora passo a explicar definitivamente. Sem mencionar o facto de viver com um português, quando eu trabalhava naquele lugar que vc sabe, eu queria me integrar a todo custo, e o meu espontaneo "você" marcava uma distância que não existia da minha parte então eu senti que para aproximar-me deles deveria começar a praticar o "tu". E assim foi. Com muito sucesso, devo dizer.Gosto sempre que tenho a oportunidade de usá-lo, e como futuro linguista, acho que só tenho a ganhar. Não se prenda com idéias tão rigídas a respeito da nossa língua, minha queridissima amiga, vai ver que não vale nada a pena.

    3) "Sento-me em uma mesa" "já coçando, perguntar-lhe de onde vinha"

    Você não só está sendo influenciada quando fala mas também na sua escrita, caríssima. Olha estes clíticos pós verbais. Que seria isTo senão o aportuguesamento máximo das suas estruturas e competencias de escrita?! rss Agora imagina se você estivesse aqui há 8 anos e LHE dissessem que você estava forçando a barra e sendo ridícula?

    Pois é, filha, Koinização para quê te quero!!!

    Beijos e abraços e nada de ficar de mal comigo =)

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  5. Wellington!! Tudo bem?
    Só para reforçar....não tenho e nem pretendo ter atitudes ou posturas xenófobas....é só uma tentativa de irmã mais velha e muita saudosa, de sempre lembrar à Kell que ela é brasileira e que o lugar dela é aqui.....mesmo que ela demore um pouquinho a voltar....é medo dela ficar aí pra sempre sabe? Mas nós aqui de casa seremos sempre gratos ao continente europeu e às pessoas que aí vivem, por estarem dando a minha rimãn querida a oportunidade de ser uma pessoa ainda melhor do que ela já é!!!
    Um grande beijo e tome conta dela aí por nós!!!
    Lelê.

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  6. Kell,

    Como sua irmã Letícia disse, seu lugar é aqui! Volte logo. Acho normal que você fique tentando adivinhar de onde as pessoas são, isso é julgar (apesar de eu achar essa palavra muito forte), mas as pessoas julgam, isso ;e fato! Não vejo nada grave nestes tipos de comentários e opiniões. Aqui, mudando de assunto, sobre um outro post seu, QUERO IR PRA GIRUS! Quase chorei com este post, próxima vez que eu voltar lá lembrarei de você com certeza! Beijos amiga, saudades eternas. Mana pro meu email seu telefone daí que meu cel mudou e eu perdi. E responde o email que eu te mandei no inicio do mês e estou esperando resposta até hoje!
    Beijos

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  7. Amiga, em quase 6 anos de Áustria, sempre me cuidei ao máximo (e ao mínimo) para nao ´coinizar`. E faco isso com maestria, ninguém no Brasil me vê misturando alemão, inglês e português. E olha que H nao fala NADA de português, ele que é a pessoa que mais falo na vida.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Enfim, vc me reconheceria na mesma hora, sem dúvida nenhuma, e adoro isso!

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  10. Quelzinha, tá linda a primavera num é! Suspeito que teremos um verão realmente com cara de verão, o que me deixa cheia de ânimo!!!!!

    Vai lá aproveitar, claaaaaro, aliás, acho que devo postar menos de agora em diante, para nao perder os dias de calor e sol hohoho

    Bom passeio amiga, beijocas

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