sexta-feira, 6 de março de 2009

A gota


Naqueles dias a temperatura não passava dos 5 graus. O inverno já começava a ir embora e o sol já ameaçava aparecer por entre as nuvens chuvosas de Aachen, mas ainda não era primavera. Um grupo de mais ou menos 20 estrangeiros encontrava-se em uma sala de aula todos os dias, pontualmente, às 9h da manhã. Tentavam estar sempre atentos e curiosos, mas ficavam bastante apreensivos com tamanha dificuldade que era aprender aquilo. Ou aquele. Um idioma: o alemão.
As aulas eram cansativas: muita gramática, muita falta de paciência da querida professora, muita grosseria do simpático professor, muito vocabulário. Mas eram também divertidas. Faziam-se ali amigos. Claro que surgiram grupos. Havia o grupo dos asiáticos, o grupo das muçulmanas, o grupo dos latinos. O grupo dos latinos era, por razões óbvias, o mais barulhento. A América do Sul e a Europa “Latina” se encontravam em massa naquele lugar. Eram 2 brasileiras, 1 argentina, 1 paraguaio, 1 mexicano, 1 venezuelana, 2 peruanos, 1 portuguesa, 1 espanhol e 1 italiano. A mistura linguística era, na verdade, uma confusão. Todos se entendiam, se comunicavam, falavam ao mesmo tempo e riam, muito, como nenhum dos outros grupos (talvez empatassem com os asiáticos). Ajudavam-se quando uma palavra podiam ser comumente compreendida. Amavam em conjunto as palavras de origem latina. Divertiam-se com aquelas que ninguém conseguia dizer. Faziam piada dos erros de pronúncia específicos – como a incapacidade dos que falavam o idioma espanhol em diferenciar w’s, f’s, v’s e b’s. As brasileiras, a portuguesa e a argentina (que falava português) era um subgrupo do grupo latino. Não paravam de falar um minuto, se ajudavam mutuamente, perguntavam as dúvidas umas às outras, enfim, era um refúgio de paz linguística naquela confusão multicultural que, afinal, tinha um único objetivo comum: cada um com a sua razão (sempre) específica, queriam falar deutsch.
Naquele dia a antipática, afrancesada e impaciente professora Anne ensinava-lhes ein bisschen mehr vocabulário. A cada palavra mencionada ouvia-se o barulho - quase passível de meditação - do folhear dos dicionários, viam-se trocas de olhares cúmplices e o sussurro hesitante da troca de informação. De repente, após a apresentação de mais uma nova palavra, as brasileiras se entreolharam, atônitas. Nem mesmo o fato de terem duas versões diferentes de dicionários fez diferença naquele momento. Aquela palavra não constava. Com a mesma rapidez que entreolharam-se, viraram-se para a portuguesa, com a expressão de dúvida que não precisou de som para ser entendida. Na mesma hora, e com um terceiro dicionário, ela respondeu:
- Pfütze significa “charco”.
A resposta veio em coro, alto e bom som:
- O quêêêêêêêê????????

Essa foi uma das minhas primeiras experiências com as diferenças entre PE e PB. No ano de 2007, muito antes de sonhar em conhecer (quanto mais em morar) em Portugal, esse foi o prenúncio daquilo que me aguardava. As protagonistas brasileiras: eu e a querida Leonora, de Campinas e que hoje vive em Montreal. A portuguesa é a Sandra Lobo, Frau Wolf, que ainda vive em Aachen. Me lembro desse dia com carinho e saudade. Quiséramos nós saber antecipadamente quanto um pequeno momento no passado pode vir a significar no futuro. Charco, no Brasil, significa “poça”. As poças d’água, assim como os acontecimentos mais importantes da nossa vida, começam sempre com uma primeira gota. Hoje completam 2 anos desde que a minha primeira gota caiu.

3 comentários:

  1. Kell,

    Dois anos e um Chargo cheio de coisas boas e muito aprendizado!!!

    você é uma amiga que me inspira cada dia mais!!!

    Continue assim!!

    TE AMO!!!

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  2. Pela sua segurança acho que 2 anos renderam charcos de conhecimento pra vc.
    Sorte sua que a professora autorizou o uso do dicionário, aqui elas sao resistentes.

    É clichê, mas sabemos que o momento presente deve ser bem vivido, pq é esse mmto que pode vir a significar no futuro, e dá uma saudade daqueeeellaaass.

    Sabe amiga, olhando o vídeo do sotaque dos mineirim, fiquei pensando quanto tempo vou conseguir viver longe do nosso tupiniquim... mas quando leio que o salário mínimo tá levando um século para ser aprovado, visto que aquela corja toda nao leva um dia pra aumentar benefícios e etecetera, me deparo na hora pensando em como voltar. Fazer o que.

    Um belo fim de semana, com um dia com direito a ser nosso! Muito chique issu!

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  3. As vezes eu acho que a gente não saiu da mesma barriga? Sério. Tenho tanto orgulho de vc!!!!

    Dois anos. Putz. E eu não me acostumo com a saudade. Ela é cada vez maior!

    Te amo.

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