quinta-feira, 19 de março de 2009

Variações sobre o mesmo tema

Lisboa, 19 de março de 2009
algum instante entre às 14h e as 16h
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Diz a professora em sala de aula:

ABRE ASPAS
Gostaria que todos lessem o conto de José Saramago intitulado "O Conto da Ilha Fantástica". Está disponível na internet. O único PROBLEMA é que está em Português do Brasil.
FECHA ASPAS

Hoje tomei conhecimento sobre a obra de um professor, escritor, tradutor e linguista brasileiro, chamado Marcos Bagno, que vem se tornando conhecido por sua luta contra a descriminação social por meio da linguagem. Para ele, "o preconceito lingüístico precisa ser reconhecido, denunciado e combatido, porque é uma das formas mais sutis e perversas de exclusão social."

Espero que eu não esteja manipulando as coisas que entram pelos meus ouvidos.

8 comentários:

  1. Bom amiga, já nao é de hoje que sabemos os portugueses nao vao muito com a fuça do nosso português. (Mas eu tb nem vou com a fuça do deles). Pronto, falei.

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  2. Retirado do seu livro "Preconceito linguístico":

    "Mito nº 2 - “Brasileiro não sabe português/Só em Portugal se fala bem português”

    - de acordo com o autor, essas duas opiniões refletem o complexo de inferioridade advindo do Brasil colônia. O brasileiro sabe português sim. O que acontece é que o nosso português é diferente do português falado em Portugal. A língua falada no Brasil , do ponto de vista lingüístico já tem regras de funcionamento, que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal. Na língua falada, as diferenças entre o português de Portugal e o português falado Brasil são tão grandes que muitas vezes surgem dificuldades de compreensão. O único nível que ainda é possível uma compreensão quase total entre brasileiros e portugueses é o da língua escrita formal, porque a ortografia é praticamente a mesma, com poucas diferenças. Concluí-se que nenhum dos dois é mais certo ou mais errado, mais bonito ou mais feio: são apenas diferentes um do outro e atendem às necessidades lingüísticas das comunidades que os usam, necessidades lingüísticas que também são diferentes.

    - É comum ouvirmos que o português está sendo “assassinado” ou corrompido pela população que não domina a norma expressa pela gramática normativa. Isso é o mesmo que dizer que os brasileiros somente têm o direito de usar o português falado em Portugal, sem nenhuma variação que expresse sua cultura ou status social. Também se escuta que a língua será destruída pela invasão de termos estrangeiros, duramente condenados pelos gramáticos conservadores. Esta previsão é feita há mais de um século e até hoje não se tornou verdade. A incorporação de termos estrangeiros é inevitável, pois nosso país se encontra sob uma inegável dominação econômica e cultural, e de nada adiantaria tentar se resolver o “estrangeirismo” sem primeiro pensarmos na fonte do “problema”.

    Para resolver os mitos aqui mostrados, é preciso que nos conscientizemos da diferença entre o português falado aqui e em Portugal, que é grande a ponto de os lingüistas preferirem chamar nossa língua de “português brasileiro”. Bagno a exemplifica com a questão dos pronomes “o/ a”: em Portugal, é comum falar-se “Eu o vi” ou “Eu a conheço”; aqui, entretanto, é raro escutarmos esta construção em uma conversa comum; mesmo quando o falante domina a norma culta, prefere dizer “Eu vi ele” ou “Eu conheço ela”, que é forma usual em nosso país. Trata-se de uma mudança na língua falada brasileira, que cada dia é mais diferente da falada em Portugal. A gramática normativa, entretanto, desconhece ou finge desconhecer essa mudança, essa transformação pela qual nossa língua passa à medida que vai se tornando “mais brasileira”, e não se atualiza, continua se baseando na gramática de Portugal, ajudando assim a se manter essa crença de que o certo é falar-se como os portugueses o fazem."

    ;)

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  3. P.S. Que vc quer, numa sala onde 80% dos alunos lêem Paulo Coelho, Nicholas Sparks e Margarida Rebelo Pinto? rsss Aliás, meu trabalho sobre isto (prx aula né?)vai ser cáustico!

    Kusse

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  4. Bom, sendo filha de Mercia, eu mandaria ela para aquele lugar na hora. Mas sendo tb filha de Moytha, devo dizer que o máximo que essa "professora" merece é ser ignorada. Mas como sou um produto intermediário entre a explosão e a sensatez, vamos lá: conta pra ela que Portugal é um pedacinho de terra que por um breve acaso se encontra no continente europeu. E que o Brasil é a força propulsora da América do Sul e a maior potência em produção de alimentos do mundo. Ponto final.

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  5. BRAVOOOO!!!!!! LELÊ, VOCÊ DISSE TUDO.CADA VEZ MAIS ME ORGULHO DAS MINHAS FILHOTAS!!! COMO VOCÊ DISSE DE MIM, IGNORE ESSA ESCROTA!!!

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  6. Não querendo ignorar a xenofobia existente em Portugal, parece-me que o comentário da professora não foi bem preconceituoso. Se tu puderes escolher entre ler um texto em português de Portugal, português do Brasil ou noutra variante qualquer, qual é que preferias? Muito provavelmente, o português do Brasil. É a esse que estás habituada, é nesse que pensas e falas, por isso a leitura fluiria melhor. Posso dizer sem qualquer dúvida que não nutro preconceito algum com pessoas de outras "nacionalidades", com outros idiomas ou variantes do meu idioma, mas iria preferir ler no meu português, o português de Portugal. Daí talvez o comentário da professora, a referência ao "problema". Se a maior parte dos alunos tem o português de Portugal como primeira língua, ler em português do Brasil é bom mas não o desejável, não é o mais fácil.

    Isto, claro, sem conhecer a professora em questão. Ela pode ou não ser xenófoba, limito-me a dizer que não vejo xenofobia no seu comentário.

    Gostava ainda de dizer que xenofobia ou sentimentos de inferioridade existem em todo o lado. Em Portugal, no Brasil ou em qualquer outro país. São prova de ignorância de quem enche a boca para ofender os outros mas também são prova de ignorância de quem tem mesmo um complexo de inferioridade e parte para a ofensa assim que se sente ofendido. Eu tenho a opinião de que a melhor maneira de lidar com o preconceito é mostrar a minha superioridade. Neste caso, não sou superior aos brasileiros, mas sou com certeza superior aos brasileiros e portugueses xenófobos.
    Sendo uma portuguesa que viveu toda a sua vida em Portugal, nunca senti a xenofobia na pele. Mas sou vítima de outras formas de discriminação, discriminações várias e que se fazem sentir de várias formas, e na esmagadora maioria dos casos, foi essa a minha forma de agir. Só me fez ficar mais forte ao preconceito e acredita que fez mudar a ideia de alguns preconceituosos que se cruzaram no meu caminho.

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  7. Ah, somos colegas de TIC e vi-te a passear no blogue durante as partes mortas da aula. Decorei o nome e vim aqui espreitar :)

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  8. Ó Raquel, não conheço a professora, mas acho que ela não queria diminuir o português do Brasil. O texto foi escrito originalmente em português de Portugal, não? E depois foi adaptado para o português do Brasil? Suponho que seja essa a situação. Eu também estudei aí e sei que algumas professoras são snobs e arrogantes, mas nunca ouvi algo de negativo em relação ao pt do Brasil, muito pelo contrário, a diversidade é a maior riqueza duma língua e eu aprendi isso aí na Faculdade de Letras.
    Bjs

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