sexta-feira, 24 de abril de 2009

A esquina da Rua Direita

A casa foi abaixo. A casa dos meus avós: antigamente "a casa do vô Ré", depois "a casa da vó". Agora, uma mera esquina. A casa da minha feliz infância e conturbada adolescência. A casa da vida do meu pai. A casa da vida de toda a família Mendonça. Dói como um soco na boca do estômago saber que isso realmente está acontecendo. Por sorte (ou não) eu não estou a ver isso. Quando eu voltar já estará construído o primeiro parágrafo do novo capítulo da história da esquina da Rua Direita com a Rua do Rosário. Dói. Mas a vida é assim. Abaixo eu transcrevo o texto de um paraminense amigo da família, Luiz Viana David, que escreveu um texto, mais que isso, uma homenagem à memória do vovô Zé e vovó Stela. Eu não poderia deixar de postar aqui. Obrigada, Luiz.



Foi ao chão a velha casa que abrigou por muitos e muitos anos o armazém do Zé Mendonça. Não tinha nenhum valor histórico, nem arquitetônico, era de um estilo comum e dividida entre a residencia do sô Zé e dona Stela e a venda. Para os filhos deve ter tido grande valor sentimental e para a minha geração e a outra antes da minha o valor era referencial. Ficava na muito valorizada esquina de rua Direita com rua do Rosário, a “esquina do Zé Mendonça” e agora, das antigas casas da rua do Rosário, resta apenas uma, totalmente desfigurada, exatamente na outra ponta do quarteirão, que foi a antiga residência do dentista Alcides Lino e de dona Jaci Campos, de frente para a praça Melo Viana.

Acredito que em um raio de 500 metros da ”venda do Zé Mendonça” todas as familias eram freguesas. O espaço não era grande mas a freguesia sim. Eram os bons tempos da caderneta, quando as compras eram anotadas pelo vendeiro e pagas religiosamente no dia aprazado. O percentual de inadimplentes era pequeno, e quando algum cliente ficava desempregado, sem renda, sô Zé Mendonça continuava a fornecer ao amigo, (a relação era de amizade entre o dono e o freguês), normalmente, até que as coisas se normalizassem. No livro Pará de Minas, meu amor!, que será lançado brevemente, vários autores fazem referencia ao armazém, pois o mesmo é parte de sua memória afetiva.

Esse negócio de entrega a domicilio, delivery, tão em moda na atualidade, era coisa antiga nos tempos da venda do sô Zé. Alguns caixeiros, como eram chamados os balconistas que também faziam as entregas, ficaram famosos, entre eles José Porfirio, que foi prefeito por três mandatos e se tornou o político mais popular da cidade no século XX; Antônio “Casinha” Cecílio de Almeida que depois também se estabeleceu com uma loja de calçados: Geraldo “Alemão” Mendes, que foi vereador por dois mandatos e Geraldo Marinho que também foi vereador, presidente da Câmara e secretário municipal da Fazenda por 30 anos. Entrava prefeito, saía prefeito e o Geraldo Marinho lá, firme, cuidando das finança pública, com um zelo que mais não se vê. Deste modo, trabalhar na venda do Zé Mendonça era como fazer um curso de técnicas comerciais. Há alguns anos, contou-me Geraldo Marinho, que estando a juntar os papéis para se aposentar, foi até a casa do sô Zé perguntar-lhe se ele ainda tinha algum recibo, algum documento, que comprovasse ter sido ele empregado no armazém. Zé Mendonça ouviu, pediu ao Geraldo Marinho que esperasse um pouco, foi lá dentro da casa e quando voltou trouxe um livro com todas as anotações, os mínimos detalhes, do relacionamento patrão/empregados, emprestou ao Geraldo o livro para que ele o apresentasse como prova junto ao INSS que nem pediu outras, as anotações do Zé Mendonça bastaram. Uma coisa os ex-empregados do armazém tinham em comum: o orgulho de terem trabalhado lá, de terem sido aprendizes do Zé Mendonça, coisa que todos sempre fizeram, e fazem, questão de dizer ao longo de suas vidas, como se o emprego desse status, o que pensando bem, dava mesmo.

Falar do casal Zé Mendonça/dona Stela eu não vou, pois no livro já citado a vir a lume em breve, a jornalista Maria Inês Herzog, que é sobrinha de dona Stela o faz muito bem e com muito mais conhecimento. Além disso, o memorialista Orlando Moreira já discorreu sobre o tema, em sua obra memorialística ” O que sei e o que fiquei sabendo”, sobre o Pará de todos os tempos.

Com a aposentadoria do querido vendeiro, morto já há alguns anos, o ponto comercial foi alugado e recebeu lojas dos mais variados tipos de comércio, nenhuma que marcasse o nobre endereço. Com os filhos espalhados pelo mundo e com o falecimento de dona Stela, a casa ficou sendo como um elo que os unia, a “casa da vó” , sempre havia por lá uma das “meninas “. Nos últimos anos ficou famosa por conta de uma “namoradeira” de tamanho natural, feita em madeira, que era colocada sobre o parapeito da janela do alpendre, de frente para a rua Direita. Eu mesmo, no inicio, cheguei a levar susto com a peça, ao passar por lá de madrugada e ve-la ali, pensando se tratar de alguem da residência. Mas eu sei que existem casos hilários de outras pessoas que também se confundiram. Para a atual geração de para(min)enses vai ficar na memória como a “casa da namoradeira”.

Mas o fato é que a especulação imobiliária venceu outra vez, levando um pouco das lembranças de um Pará que não existe mais. Pensando bem, o imóvel não era mesmo um patrimônio a ser tombado. Vale muito mais as boas recordações de quem nele viveu, de quem teve o privilégio de frequentar, de ser freguês do armazém, de lá trabalhar. Parafraseando Drummond, agora a velha casa onde funcionou o armazém do Zé Mendonça “é apenas um retrato na parede.”

(Dedico este texto ao Zé Antônio, Luiz, Giovani, Valéria, Gerusa e Betânia, filhos de dona Stela e de sô Zé Mendonça, bons amigos meus, apesar de a gente quase não se ver ou falar. São de fato os amigos do coração, de uma vida inteira).

2 comentários:

  1. Amiga,
    fiquei sabendo pelas meninas da demolição da casa já que meus olhos estavam ocupados com o casamento.
    É muito triste quando um laço é cortado assim.
    Depois que meus avós faleceram a casa foi vendida e hoje se eu for em Piumhi vou ter que me hospedar em um hotel ou casa de amigo. Parente já não tenho mais lá!
    Também vivi minha infância e conturbada adolescência lá! Tenho saudade do cheiro do pão de queijo da vovó, do chocolate que eu surrupiava na mercearia, da turma dos motoqueiros, das bananas que eu e minhas primas comíamos para esconder o gosto do cigarro! SInto falta dos amigos que fiz e hj não tenho mais notícias! Das festas, dos beijos, do coração disparado de ter a certeza que encontraria o paquerinha na noite pois lá antigamento só tinha um lugar para sair!
    Além de vááááárias outras coisas!
    Bons tempos!
    Um beijo em forma de ombro para vc chorar de saudade!

    ResponderExcluir
  2. Bonito texto! E sim, a casa vai ser lembrada como a casa da namoradeira!

    AbraÇos, Bárbara Mendonça!

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.