domingo, 29 de março de 2009

Babel

Sento-me em uma mesa, que fica ao lado do departamento de estudos eslavos onde, dentro de no máximo uma hora, vou ter aula de (t)checo. A mesa não é a única. Fica num corredor comprido, com algumas outras mesas. As pessoas ficam ali estudando ou, então, no computador. Eu tiro uma apostila de psicolinguística e começo a ler sobre as afasias de Broca e Wernicke e aquilo verdadeiramente é um saco. Por essa razão, qualquer movimento tira a minha atenção. Passam pessoas, outras conversam sobre eu não sei o quê. Na minha frente aquilo que era uma mesa vazia se enche com a chegada de um casal. Um rapaz muito loiro de olhos bem claros, muito branco, não tão alto e bem magrinho. A rapariga (ops… não estou ofendendo ninguém!) é uma típica portuguesa: cabelos lisos até a altura dos ombros, num brilho de dar inveja. Tem os olhos grandes, expressivos e castanhos, é baixa e bem magrinha. Conversam. Minha atenção então se prende a eles quando percebo que o rapaz não é português. Sinceramente não era capaz de identificar de onde vinha. Em se tratando de sua loirice, bem podia ser um estudante Erasmus que já fala português muito bem, já que a conversa dos dois flui bastante. Mas, estranho, era que eles conversavam com uma intimidade que não existiria entre uma jovem portuguesa e um estudante acabado de chegar de outro país. O português dele era muito bom. Seria brasileiro? Não. Ele fala em tu corretamente conjugado, usa palavras como gajo(cara), pois, ya, malta(galera) e fala “tás a ver?”. Bem, mas isso eu também já faço… Será que ele é português de alguma outra região, lá dos “Trás dos Montes” onde dizem que se fala tão diferente? Tento notar sinais claros de português do Brasil. Observando seus o’s e a’s noto que são bem abertos, mas não poderia ele ser do sul de Portugal? Tento então encontrar aquele que é o maior de todos os sinais de brasileirismo na língua portuguesa: os djias e tchias. Mas não encontro. Nem mesmo um gerúndio. E ele faz o x no final dos plurais, como os cariocas. De onde diabos vem esse cara? Segundos antes de a minha língua, já coçando, perguntar-lhe de onde vinha, o telefone dele toca. Ele atende:

- Alô?

Brasileiro. Brasileiro com certeza absoluta. Os portugueses não atendem o seu “telemóvel” dizendo alô (apesar de que alguns dizem que sim, mas eu não concordo). Dizem “Tô sim?”, indubitavelmente. Prefiro confirmar. Espero. Ele desliga. Olho pra ele e, já rindo, pergunto. Ele diz: “Sim, sou do Nordeste. E você?” Explicam-se então a não presença dos tch’s e djs’s antes da vogal e os x em final de palavras com s. Ele mora aqui há 4 anos, com sua família. Essa característica é bem brasileira, e confesso, adoro: a gente descobre a vida inteira da pessoa, em cinco minutos de conversa. Ele acha que não perdeu o sotaque de forma alguma e a sua amiga portuguesa concorda. Mas qualquer brasileiro da gema teria dificuldades em confirmar que ele é brasileiro. Como eu tive. E olha que a minha avó já diz que eu já estou falando de uma forma diferente. Lembro de uma história que ouvi aqui, de um português que vive há muitos anos no Brasil e que no Brasil é, e sempre será, o “Manoel da padaria”, por causa do sotaque forte. Mas se o Manoel vier a Lisboa com certeza já será considerado “brasilairo”. 

Isso é a Koiné, meus caros amigos. A coinização é a eliminação de traços dialetais que dificultam a comunicação, que são diferentes da língua que é falada na sociedade onde o falante se inseriu, formando dialetos. O português do Brasil é, desde sempre, o resultado de uma koiné, já que somos a mistura de várias raças e, consequentemente, de várias línguas. Mesmo o português, também começou com a mistura do Latim com línguas locais e algumas pitadas de arabismo. Well, assim é das Leben, viž? Ao final da conversa, levanto-me e vou para a aula de (t)checo. Talvez, um dia, com tantas línguas na cabeça, alguém que me vê pela primeira vez também não vai reconhecer de onde é que eu venho. Eu e o meu português koinizado.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Eufágica

Hoje ao acordar,
algo dentro de mim
estava vazio,
quase a roncar.

Tentava se ajeitar,
palpitava e doía.
Ansiava por algo,
Algo p’ra me aquietar.

Muito chocolate comi,
tomei chá.
Aquilo que encontrava,
Não importava; ingeri.

Nada aconteceu.
O que estava vazio
Não era o meu estômago.
Era eu.

pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Oswald de Andrade

terça-feira, 24 de março de 2009

As quatro estações da minha janela





Depois da primavera sempre chega o verão
E depois a mediana estação
Delfalca corações e árvores
Traz frieza; congelantes ares

Mas passa

Depois do outono sempre chega o inverno
E depois os dias frios e ternos
São coloridos por tempos juvenis
Trazem calor; ares primaveris

E passam

E voltam
E vêm
Não ficam
Nos fazem bem

segunda-feira, 23 de março de 2009

Puertas abiertas al aprendizaje del portugués!


video

Campanha institucional implantada pela Junta da Extremadura (região autônoma que fica no sudoeste da Espanha) com objetivo de estimular a aprendizagem do português como língua estrangeira. Bacana!

sábado, 21 de março de 2009

Hoje é sábado


A última vez que fui a Girus foi ótima, como sempre. Eu e a Ju chegamos em Pará de Minas no sábado de manhã, animadas com as mil possibilidades que a noite nos traria. Será que iríamos encontrá-los? Ir a Girus sempre significou chegar a Pará de manhã, almoçar na minha avó e por lá ficar a tarde toda, no alpendre, olhando se os carros passavam. Mas eles nunca passavam. No finalzinho da tarde subimos ao bar do Geraldinho. Eu comecei a encher a cara por ansiedade e a Ju bebeu só uma latinha de Skol, pra me fazer rir o tempo inteiro. Ao escurecer nos arrumamos. Lindas, perfumadas, com saltos altíssimos e muita maquiagem. Minha vó perguntou se eu tinha comido direito, pois ainda tinha comida na geladeira ou que a minha Tia Jerusa havia comprado pizza. Comi. Sem necessidade, porque tudo aquilo ficou lá no banheiro da casa dela ou na primeira ida ao banheiro da discoteca, não me lembro ao certo. Ansiedade. Ela e a Ju, companheiras inseparáveis. E também uma quarta companhia, a desilusão; mas dessa eu fugi com muita vodka e um outro alguém qualquer. A Ju o encontrou sozinho. Eu não. Hoje é sábado.

Hoje é sábado. Sinto vontade de por os saltos altíssimos e a maquiagem. Quero beber e dançar a noite inteira. Assistir da varanda os carros passarem. Hoje não me interessa se ele estará lá. Desde a última vez que fui à Girus, passaram-se uns 5 anos. Não há mais a minha vó pra me mandar comer, nem o banheiro de sua casa pra eu devolver a comida; nem mesmo a casa está lá mais. A Ju continua minha amiga, mas não a encontro. A varanda do meu quarto é alta, não fica na rua principal. Sei que ainda há a Girus, mas ninguém que eu conheço vai mais lá. Aqui também não conheço ninguém que vai ao lugar onde eu vou. Mas eu vou. Eu e a única companhia que ainda me resta, única testemunha daquilo que fui e daquilo que venho a ser. Não há vodka que a faça desaparecer. Saudade. Hoje é sábado.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Variações sobre o mesmo tema

Lisboa, 19 de março de 2009
algum instante entre às 14h e as 16h
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Diz a professora em sala de aula:

ABRE ASPAS
Gostaria que todos lessem o conto de José Saramago intitulado "O Conto da Ilha Fantástica". Está disponível na internet. O único PROBLEMA é que está em Português do Brasil.
FECHA ASPAS

Hoje tomei conhecimento sobre a obra de um professor, escritor, tradutor e linguista brasileiro, chamado Marcos Bagno, que vem se tornando conhecido por sua luta contra a descriminação social por meio da linguagem. Para ele, "o preconceito lingüístico precisa ser reconhecido, denunciado e combatido, porque é uma das formas mais sutis e perversas de exclusão social."

Espero que eu não esteja manipulando as coisas que entram pelos meus ouvidos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Língua e variedade

A língua, segundo o dicionário Houaiss, é “sistema de representação constituído por palavras e por regras que as combinam em frases que os indivíduos de uma comunidade linguística usam como principal meio de comunicação e de expressão, falado ou escrito”, ou seja, é um meio utilizado para um fim, a comunicação entre indivíduos num grupo ou na sociedade em que se inserem. A língua parte de um príncipio, de um chamado “grau zero”, que é a norma: modelo ideal que não admite desvios, estabelecido pelas instituições sociais, e que determina o uso considerado correto de uma língua. Ora, mas o que se diz então das diferenças encontradas nas variações de uma língua, quer dentro ou fora de um território? As variantes estão fora da norma, estão erradas?
Em verdade, a norma é um modelo virtual que não tem existência real, existe apenas nos livros, apenas como um ponto de partida, um ponto de vista. Por exemplo, consideramos a norma da Língua Portuguesa na Europa, o dialeto de Lisboa (Não vou falar sobre a norma do Brasil, porque, no Brasil, consideramos a norma o dialeto carioca. Entretanto, isso não é verdade. Há indícios que a norma agora está na TV Globo, mas esta é uma outra discussão). O ensino da Língua Portuguesa nas escolas em todo Portugal segue este padrão, esta norma. Os estudantes aprendem a usar aquele padrão na forma como escrevem mas esta não é, necessariamente, a realidade da forma como falam (nem mesmo num país tão pequeno como Portugal). Um estudante que vive no Porto (no norte do país, onde o dialeto é mais conservador que em Lisboa), por exemplo, sabe e identifica que a sua realidade ao falar é diferente do modelo aprendido na escola e falado na capital. O mesmo acontece no Brasil, quando os estudantes de todas as classes sociais se deparam com uma incalculável diferença entre aquilo que escrevem e aquilo que falam. Mesmo assim, a existência da norma é essencial, principalmente para definição de questões ortográficas (e aí entra o acordo...). Não seria nada bom cada um escrever du geitu k axa keh sehrtu, num eh?
Mas se a norma padrão não é uma realidade, qual é a norma real? A norma real é aquela que admite desvios e variações. É a língua real das pessoas que exprimem as palavras e fazem uso da mesma língua de forma diferente. É aquela norma apresentada em cada dialeto e que se difere no espaço, no tempo, social ou situacionalmente. A Língua Portuguesa é rica em dialetos. Independente de nações e dentro de cada nação onde é língua oficial, o Português apresenta diferentes variantes. (Alguém conhece o mineirês?) Sistemas complexos e completos em si, que em conjunto formam o sistema da Língua Portuguesa (esse incluindo o Português de Portugal, do Brasil, da África e também o Galego), ainda mais complexo e completo.
É por isso que a discussão a respeito dessa língua tão globalizada é também tão complicada. Entender um sistema tão amplo e que possui tantos aspectos é um caminho, no mínimo, difícil. Vai além da questão “língua”. É identidade e identificação, nacionalidade, personalidade, cultura, política e interesse. E todos esse aspectos, tal como a nossa língua, têm as suas variações. Uma língua falada nos quatro cantos do mundo não poderia ser para sempre a mesma. E ser diferente não é ser errado. O importante, por fim, é o respeito às diferenças. Parece complexo mas é fundamental.

terça-feira, 17 de março de 2009

Garçonete da casa de Fado



Deolinda, grupo de música popular portuguesa, são muito mais que fado, ... e tudo o mais que a música contém. O vídeo é de uma música chamada "Garçonete da casa de Fado" (Aqui não se diz Garçonete, diz-se "Empregada de mesa") e é uma homenagem ao Brasil.

Assunto que gera uma certa polêmica, na verdade... Na primeira estrofe, ela diz "Eu sou brasileira e já arranho o português." Brasileiro, afinal, fala ou arranha português?

segunda-feira, 9 de março de 2009

O vodu

Conhecemos palavras os e seus significados mas, verdadeiramente, nunca paramos para pensar a respeito. Este tem sido um dos meus mais interessantes passatempos neste momento e, por menos que eu procure, mais têm aparecido à minha frente, sem pedir licença.

Eu nunca imaginei que aprenderia uma língua eslava. Para quê? Esta é, inclusive, a pergunta que mais me fazem desde que comecei a me aventurar em aprender tcheco. É, claro que a razão inicial tem nome e sobrenome: tchecos, diga-se de passagem. Mas o tempo vai passando e, a cada dia que aprendo mais, mais tenho vontade de um dia poder falar a língua fluentemente. Perfeitamente, bem, não me arriscaria a dizer... Mas se puder falar só um pouquinho de tcheco já estaria de bom tamanho.

É díficil, muito difícil! São mil e uma declinações: vocativo, nominativo, acusativo, e por aí vai. No total onze. Sem falar nas palavras, que têm umas cinco ou seis consoantes seguidas. Zmrzlina, minha preferida para sempre. Significa sorvete (ou gelado). O sobrenome (ou apelido) da minha colega de casa é Tvrdková. Ninguém precisa de vogais, não é? A melodia da língua é diferente também. Parece que as pessoas nunca vão parar de falar e que uma hora elas perderão o fôlego. Mas não perdem. Espero eu também não perder. Isso se dá porque a acentuação das palavras é na primeira sílaba, sempre. O nome do Radek, por exemplo, é acentuado na primeira sílaba e, então, lê-se algo como Rádek. Como no nosso português as palavras em geral são paroxítonas, temos a tendência a ler as palavras com tal acentuação se a marca tônica não estiver graficamente assinalada. O que é o caso. Portanto - e ele já sabe e adora - na nossa terrinha o nome dele mudou. Chama-se Radéki. Com a pronúncia do i no final.

Quando eu comecei a aprender alemão – e como já foi citado aqui anteriormente – a descoberta de palavras latinas era sempre um motivo de comemoração. Quando comecei a aprender o tcheco não foi diferente. Palavras como brokolice, škola, professorka e restaurace foram também um acontecimento. Mas não esperava que seria possível que a descoberta de palavras eslavas pudessem também ser surpreendentes.

Em uma das últimas aulas de tcheco, a professora ensinava o pretérito. Nada muito difícil, por incrível que pareça: a língua possui apenas um pretérito, assim, simples assim. A professora pediu que fizéssemos um exercício, lêssemos o parágrafo e depois traduzíssemos aquilo. O meu foi o seguinte:

Můj dědeček pil vodu.”

- "Meu avô faz vodu". Certo?

Risos

“Meu avô bebeu água” era o significado da frase. Vodu era a forma de uma das declinações da palavra Voda, que em tcheco significa Água. É uma palavra de origem eslava; também no Russo água é Voda. No russo há também uma outra palavra parecida com essa, que acredito que todos conhecemos. Vodka, lembram-se? A água que passarinho não bebe? Pois é. Vodka é o diminutivo de Voda e “aguinha” para os eslavos significa água ardente.

As palavras e suas origens aparecem à minha frente, assim, como se fossem vodu.

domingo, 8 de março de 2009

Beco das toponímias

Ontem visitei um blog, o Pesa-nervos, onde li um post em que o autor mostra a foto de uma rua existente em Ipatinga- MG, no Brasil, que se chama “Rua Pablo Picasso”, e cita o nome de várias ruas em que ele moraria, que possuem nomes de personalidades interessantes, tais como Andy Warhol, Susan Sontag, Yoko Ono, etc.
Eu me lembrei que aqui em Lisboa existe uma rua chamada “Cecília Meireles” (em Benfica). Me lembrei, então, dos vários outros nomes interessantíssimos das ruas da cidade. Quando vim pela primeira vez, o primeiro nome que me chamou a atenção foi o “Beco do Chão Salgado”, que fica em Belém.

Como estava aqui somente a passeio, e não sabia se retornaria, continuei a observação dos nomes interessantes que via:


Ontem comecei a pesquisar o nome de outras ruas. A Patrícia me falou sobre o nome de uma rua em Lisboa que, inclusive, foi motivo para a criação de um prolóquio: “Não tentes pôr o Rossio na Rua da Betesga”, já que as proporções entre a Rua da Betesga (Betesga significa rua estreita) e o Rossio (que é uma das maiores praças de Lisboa) são totalmente díspares, logo, tarefa impossível. Achei uma explicação mais interessante no blog delisboa.

Em um outro blog, o Ruas de Lisboa com alguma história encontrei referências a outras ruas, como “largo das necessidades”, “rua dos bacalhoeiros”, “rua da triste feia”… De acordo com o blog sobre esta última: Diz a tradição que ali moravam três irmãs. Duas normais, enquanto que a terceira tinha feições tão pouco agradáveis à vista dos rapazes que os que passavam fugiam comentando: «que focinho de porca», ou ainda «que medonha seresma». A simpatia não correspondia à beleza e a moça, apesar de ter ficado sozinha na vida, travou amizades. Estava sempre sentada à porta, numa melancolia doente. Depois de morrer, ninguém a esqueceu e o sítio ficou conhecido pelos seus atributos. Que dó.


Se a triste feia morasse na Rua do Arco do Cego ela não teria sido percebida e nem nunca teria recebido essa homenagem. Feia, triste e esquecida seria muito pior.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A gota


Naqueles dias a temperatura não passava dos 5 graus. O inverno já começava a ir embora e o sol já ameaçava aparecer por entre as nuvens chuvosas de Aachen, mas ainda não era primavera. Um grupo de mais ou menos 20 estrangeiros encontrava-se em uma sala de aula todos os dias, pontualmente, às 9h da manhã. Tentavam estar sempre atentos e curiosos, mas ficavam bastante apreensivos com tamanha dificuldade que era aprender aquilo. Ou aquele. Um idioma: o alemão.
As aulas eram cansativas: muita gramática, muita falta de paciência da querida professora, muita grosseria do simpático professor, muito vocabulário. Mas eram também divertidas. Faziam-se ali amigos. Claro que surgiram grupos. Havia o grupo dos asiáticos, o grupo das muçulmanas, o grupo dos latinos. O grupo dos latinos era, por razões óbvias, o mais barulhento. A América do Sul e a Europa “Latina” se encontravam em massa naquele lugar. Eram 2 brasileiras, 1 argentina, 1 paraguaio, 1 mexicano, 1 venezuelana, 2 peruanos, 1 portuguesa, 1 espanhol e 1 italiano. A mistura linguística era, na verdade, uma confusão. Todos se entendiam, se comunicavam, falavam ao mesmo tempo e riam, muito, como nenhum dos outros grupos (talvez empatassem com os asiáticos). Ajudavam-se quando uma palavra podiam ser comumente compreendida. Amavam em conjunto as palavras de origem latina. Divertiam-se com aquelas que ninguém conseguia dizer. Faziam piada dos erros de pronúncia específicos – como a incapacidade dos que falavam o idioma espanhol em diferenciar w’s, f’s, v’s e b’s. As brasileiras, a portuguesa e a argentina (que falava português) era um subgrupo do grupo latino. Não paravam de falar um minuto, se ajudavam mutuamente, perguntavam as dúvidas umas às outras, enfim, era um refúgio de paz linguística naquela confusão multicultural que, afinal, tinha um único objetivo comum: cada um com a sua razão (sempre) específica, queriam falar deutsch.
Naquele dia a antipática, afrancesada e impaciente professora Anne ensinava-lhes ein bisschen mehr vocabulário. A cada palavra mencionada ouvia-se o barulho - quase passível de meditação - do folhear dos dicionários, viam-se trocas de olhares cúmplices e o sussurro hesitante da troca de informação. De repente, após a apresentação de mais uma nova palavra, as brasileiras se entreolharam, atônitas. Nem mesmo o fato de terem duas versões diferentes de dicionários fez diferença naquele momento. Aquela palavra não constava. Com a mesma rapidez que entreolharam-se, viraram-se para a portuguesa, com a expressão de dúvida que não precisou de som para ser entendida. Na mesma hora, e com um terceiro dicionário, ela respondeu:
- Pfütze significa “charco”.
A resposta veio em coro, alto e bom som:
- O quêêêêêêêê????????

Essa foi uma das minhas primeiras experiências com as diferenças entre PE e PB. No ano de 2007, muito antes de sonhar em conhecer (quanto mais em morar) em Portugal, esse foi o prenúncio daquilo que me aguardava. As protagonistas brasileiras: eu e a querida Leonora, de Campinas e que hoje vive em Montreal. A portuguesa é a Sandra Lobo, Frau Wolf, que ainda vive em Aachen. Me lembro desse dia com carinho e saudade. Quiséramos nós saber antecipadamente quanto um pequeno momento no passado pode vir a significar no futuro. Charco, no Brasil, significa “poça”. As poças d’água, assim como os acontecimentos mais importantes da nossa vida, começam sempre com uma primeira gota. Hoje completam 2 anos desde que a minha primeira gota caiu.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O sotaque Mineiro



Será que eu ainda falo assim? =)

Quimera

Vivo num mundo de ilusão.
Num mundo cor de rosa, de brinquedo, de condão.
Acredito no amor, na família, nas palavras, nas promessas e no perdão.
Acredito em bom humor, sorriso e compaixão.
Creio no amor eterno. Mas no fogo sexual eterno, não.
Acredito em casamento. Mesmo que pra sempre ele não dure, não...
Acredito nos momentos felizes e que eles ficarão.
A felicidade é um singelo momento onde os olhos vêem, a mente pensa e bate o coração.

Quimera eu ter razão.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Viagem pelo mundo álcool


Nesta última semana viajei pela Áustria, em duas cidades chamadas Sankt Georgen e Aflenz, e pela Hungria, precisamente em Budapeste. Grande parte do tempo nevou e acho que eu nunca vou perder o brilho nos olhos ao ver o mundo branco. Para mim, é a coisa mais linda que existe.


Nestes dias pude matar a saudade do idioma alemão e tentei embromar meu querido deutsch sempre que podia, mesmo quando as pessoas respondiam em inglês eu continuava insistindo e falava em alemão. No hotel em St Georgen, no meio do show e com a música muito, muito alta, eu resolvi pedir uma taça de vinho. Berrando aos ouvidos do barman eu dizia "Wein", uma, duas, três vezes... e ele continuava a me encarar como se eu estivesse ali falando algo de outro mundo, algo que soasse talvez húngaro, não sei. Após a derradeira e quinta vez uma garota que estava ao meu lado pediu que eu falasse ao seu ouvido e eu disse, mais uma vez, "Wein": era tão difícil assim? Ela então virou-se para o barman e disse algo. Algo que eu não faço ideia mas que, enfim, foi providencial para que uma taça, a ser inundada, surgisse à minha frente. O que ela disse, ich weiss nicht. Mas o que acontece é que em vilas e pequenas cidades as pessoas não falam alemão propriamente, mas um dialeto, algo quase caipira. E talvez o moço estivesse bêbado demais para entender meu sacrílego hochdeutsch für ausländichen (alemão para estrangeiros).

Já em Budapeste fui descobrir como se diz vinho em húngaro. Boroző. Assim mesmo, com esses dois acentos em cima do o. Segundo um amigo húngaro, esta palavra pronuncia-se da seguinte forma: Bôrôzöö; sendo o ö palatalizado, ou seja, ao falar ö, diz-se o normalmente mas coloca-se a língua enconstada nos lábios. E quando a palavra tem esse ő especial com os dois acentos, deve-se prolongar o ö, fazendo-o duas vezes. Um öö... Claramente muito simples e diferenciador. Será que se eu tivesse falado assim lá em Aflenz o barman teria entendido? Talvez se eu tivesse pedido cerveja. A cerveja em húngaro escreve-se Söröző. Alguém arrisca a pronúncia?

Hoje na faculdade, um colega belga, interessadíssimo pela língua portuguesa, me perguntou o significado da palavra caipirinha. Eu logo, prontamente, disse que tinha a ver com caipira, aquele, o sujeito do interior. Mas, na verdade, não tinha certeza. Então, chamei o meu amigo Houaiss para resolver a questão. E ele me disse que eu estava certa. Mas me contou, claro, algo ainda mais interessante: o que é que tem a ver o caipira do interior com a mistura de limão e cachaça?
Caipirinha:
1. Regionalismo: Brasil.
bebida preparada com rodelas ou pedaços de limão com casca, ger. macerados, misturados e batidos ('agitados') com açúcar, gelo e cachaça ou outra aguardente (como vodca ou rum).
2. Regionalismo: Rio de Janeiro.
botequim simples e pequeno, onde se servem bebidas e refeições ligeiras no balcão.

Talvez era "caipirinha austríaca" a palavra mágica que eu não conhecia em Aflenz.