
Sento-me em uma mesa, que fica ao lado do departamento de estudos eslavos onde, dentro de no máximo uma hora, vou ter aula de (t)checo. A mesa não é a única. Fica num corredor comprido, com algumas outras mesas. As pessoas ficam ali estudando ou, então, no computador. Eu tiro uma apostila de psicolinguística e começo a ler sobre as afasias de Broca e Wernicke e aquilo verdadeiramente é um saco. Por essa razão, qualquer movimento tira a minha atenção. Passam pessoas, outras conversam sobre eu não sei o quê. Na minha frente aquilo que era uma mesa vazia se enche com a chegada de um casal. Um rapaz muito loiro de olhos bem claros, muito branco, não tão alto e bem magrinho. A rapariga (ops… não estou ofendendo ninguém!) é uma típica portuguesa: cabelos lisos até a altura dos ombros, num brilho de dar inveja. Tem os olhos grandes, expressivos e castanhos, é baixa e bem magrinha. Conversam. Minha atenção então se prende a eles quando percebo que o rapaz não é português. Sinceramente não era capaz de identificar de onde vinha. Em se tratando de sua loirice, bem podia ser um estudante Erasmus que já fala português muito bem, já que a conversa dos dois flui bastante. Mas, estranho, era que eles conversavam com uma intimidade que não existiria entre uma jovem portuguesa e um estudante acabado de chegar de outro país. O português dele era muito bom. Seria brasileiro? Não. Ele fala em tu corretamente conjugado, usa palavras como gajo(cara), pois, ya, malta(galera) e fala “tás a ver?”. Bem, mas isso eu também já faço… Será que ele é português de alguma outra região, lá dos “Trás dos Montes” onde dizem que se fala tão diferente? Tento notar sinais claros de português do Brasil. Observando seus o’s e a’s noto que são bem abertos, mas não poderia ele ser do sul de Portugal? Tento então encontrar aquele que é o maior de todos os sinais de brasileirismo na língua portuguesa: os djias e tchias. Mas não encontro. Nem mesmo um gerúndio. E ele faz o x no final dos plurais, como os cariocas. De onde diabos vem esse cara? Segundos antes de a minha língua, já coçando, perguntar-lhe de onde vinha, o telefone dele toca. Ele atende:
- Alô?
Brasileiro. Brasileiro com certeza absoluta. Os portugueses não atendem o seu “telemóvel” dizendo alô (apesar de que alguns dizem que sim, mas eu não concordo). Dizem “Tô sim?”, indubitavelmente. Prefiro confirmar. Espero. Ele desliga. Olho pra ele e, já rindo, pergunto. Ele diz: “Sim, sou do Nordeste. E você?” Explicam-se então a não presença dos tch’s e djs’s antes da vogal e os x em final de palavras com s. Ele mora aqui há 4 anos, com sua família. Essa característica é bem brasileira, e confesso, adoro: a gente descobre a vida inteira da pessoa, em cinco minutos de conversa. Ele acha que não perdeu o sotaque de forma alguma e a sua amiga portuguesa concorda. Mas qualquer brasileiro da gema teria dificuldades em confirmar que ele é brasileiro. Como eu tive. E olha que a minha avó já diz que eu já estou falando de uma forma diferente. Lembro de uma história que ouvi aqui, de um português que vive há muitos anos no Brasil e que no Brasil é, e sempre será, o “Manoel da padaria”, por causa do sotaque forte. Mas se o Manoel vier a Lisboa com certeza já será considerado “brasilairo”.
Isso é a Koiné, meus caros amigos. A coinização é a eliminação de traços dialetais que dificultam a comunicação, que são diferentes da língua que é falada na sociedade onde o falante se inseriu, formando dialetos. O português do Brasil é, desde sempre, o resultado de uma koiné, já que somos a mistura de várias raças e, consequentemente, de várias línguas. Mesmo o português, também começou com a mistura do Latim com línguas locais e algumas pitadas de arabismo. Well, assim é das Leben, viž? Ao final da conversa, levanto-me e vou para a aula de (t)checo. Talvez, um dia, com tantas línguas na cabeça, alguém que me vê pela primeira vez também não vai reconhecer de onde é que eu venho. Eu e o meu português koinizado.



