quarta-feira, 29 de abril de 2009

Não é preciso ir pra Barretos

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A esquina da Rua Direita

A casa foi abaixo. A casa dos meus avós: antigamente "a casa do vô Ré", depois "a casa da vó". Agora, uma mera esquina. A casa da minha feliz infância e conturbada adolescência. A casa da vida do meu pai. A casa da vida de toda a família Mendonça. Dói como um soco na boca do estômago saber que isso realmente está acontecendo. Por sorte (ou não) eu não estou a ver isso. Quando eu voltar já estará construído o primeiro parágrafo do novo capítulo da história da esquina da Rua Direita com a Rua do Rosário. Dói. Mas a vida é assim. Abaixo eu transcrevo o texto de um paraminense amigo da família, Luiz Viana David, que escreveu um texto, mais que isso, uma homenagem à memória do vovô Zé e vovó Stela. Eu não poderia deixar de postar aqui. Obrigada, Luiz.



Foi ao chão a velha casa que abrigou por muitos e muitos anos o armazém do Zé Mendonça. Não tinha nenhum valor histórico, nem arquitetônico, era de um estilo comum e dividida entre a residencia do sô Zé e dona Stela e a venda. Para os filhos deve ter tido grande valor sentimental e para a minha geração e a outra antes da minha o valor era referencial. Ficava na muito valorizada esquina de rua Direita com rua do Rosário, a “esquina do Zé Mendonça” e agora, das antigas casas da rua do Rosário, resta apenas uma, totalmente desfigurada, exatamente na outra ponta do quarteirão, que foi a antiga residência do dentista Alcides Lino e de dona Jaci Campos, de frente para a praça Melo Viana.

Acredito que em um raio de 500 metros da ”venda do Zé Mendonça” todas as familias eram freguesas. O espaço não era grande mas a freguesia sim. Eram os bons tempos da caderneta, quando as compras eram anotadas pelo vendeiro e pagas religiosamente no dia aprazado. O percentual de inadimplentes era pequeno, e quando algum cliente ficava desempregado, sem renda, sô Zé Mendonça continuava a fornecer ao amigo, (a relação era de amizade entre o dono e o freguês), normalmente, até que as coisas se normalizassem. No livro Pará de Minas, meu amor!, que será lançado brevemente, vários autores fazem referencia ao armazém, pois o mesmo é parte de sua memória afetiva.

Esse negócio de entrega a domicilio, delivery, tão em moda na atualidade, era coisa antiga nos tempos da venda do sô Zé. Alguns caixeiros, como eram chamados os balconistas que também faziam as entregas, ficaram famosos, entre eles José Porfirio, que foi prefeito por três mandatos e se tornou o político mais popular da cidade no século XX; Antônio “Casinha” Cecílio de Almeida que depois também se estabeleceu com uma loja de calçados: Geraldo “Alemão” Mendes, que foi vereador por dois mandatos e Geraldo Marinho que também foi vereador, presidente da Câmara e secretário municipal da Fazenda por 30 anos. Entrava prefeito, saía prefeito e o Geraldo Marinho lá, firme, cuidando das finança pública, com um zelo que mais não se vê. Deste modo, trabalhar na venda do Zé Mendonça era como fazer um curso de técnicas comerciais. Há alguns anos, contou-me Geraldo Marinho, que estando a juntar os papéis para se aposentar, foi até a casa do sô Zé perguntar-lhe se ele ainda tinha algum recibo, algum documento, que comprovasse ter sido ele empregado no armazém. Zé Mendonça ouviu, pediu ao Geraldo Marinho que esperasse um pouco, foi lá dentro da casa e quando voltou trouxe um livro com todas as anotações, os mínimos detalhes, do relacionamento patrão/empregados, emprestou ao Geraldo o livro para que ele o apresentasse como prova junto ao INSS que nem pediu outras, as anotações do Zé Mendonça bastaram. Uma coisa os ex-empregados do armazém tinham em comum: o orgulho de terem trabalhado lá, de terem sido aprendizes do Zé Mendonça, coisa que todos sempre fizeram, e fazem, questão de dizer ao longo de suas vidas, como se o emprego desse status, o que pensando bem, dava mesmo.

Falar do casal Zé Mendonça/dona Stela eu não vou, pois no livro já citado a vir a lume em breve, a jornalista Maria Inês Herzog, que é sobrinha de dona Stela o faz muito bem e com muito mais conhecimento. Além disso, o memorialista Orlando Moreira já discorreu sobre o tema, em sua obra memorialística ” O que sei e o que fiquei sabendo”, sobre o Pará de todos os tempos.

Com a aposentadoria do querido vendeiro, morto já há alguns anos, o ponto comercial foi alugado e recebeu lojas dos mais variados tipos de comércio, nenhuma que marcasse o nobre endereço. Com os filhos espalhados pelo mundo e com o falecimento de dona Stela, a casa ficou sendo como um elo que os unia, a “casa da vó” , sempre havia por lá uma das “meninas “. Nos últimos anos ficou famosa por conta de uma “namoradeira” de tamanho natural, feita em madeira, que era colocada sobre o parapeito da janela do alpendre, de frente para a rua Direita. Eu mesmo, no inicio, cheguei a levar susto com a peça, ao passar por lá de madrugada e ve-la ali, pensando se tratar de alguem da residência. Mas eu sei que existem casos hilários de outras pessoas que também se confundiram. Para a atual geração de para(min)enses vai ficar na memória como a “casa da namoradeira”.

Mas o fato é que a especulação imobiliária venceu outra vez, levando um pouco das lembranças de um Pará que não existe mais. Pensando bem, o imóvel não era mesmo um patrimônio a ser tombado. Vale muito mais as boas recordações de quem nele viveu, de quem teve o privilégio de frequentar, de ser freguês do armazém, de lá trabalhar. Parafraseando Drummond, agora a velha casa onde funcionou o armazém do Zé Mendonça “é apenas um retrato na parede.”

(Dedico este texto ao Zé Antônio, Luiz, Giovani, Valéria, Gerusa e Betânia, filhos de dona Stela e de sô Zé Mendonça, bons amigos meus, apesar de a gente quase não se ver ou falar. São de fato os amigos do coração, de uma vida inteira).

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Torcicolo


Segundo o Houaiss a origem da palavra vem do italiano torcicollo: de torcere 'torcer' + collo 'pescoço'.

A origem da dor vem de uma sigla formada pelas letras P e Q mas eu prefiro não contar a etimologia.

A solução vem da combinação de duas coisas:
  • do francês massage que por sua vez vem do latim mattea, que virou matèola: pau, cabo de enxada.
  • do latim repaúso,as,ávi,átum,áre 'repousar, descansar'.
Segundo o site torcicolo.com "não é raro o espasmo aparecer subitamente, sem causa aparente, ou mesmo durante o sono." 

Espasmo vem do grego spasmós,oû 'ação de puxar da espada; agitação violenta, convulsão'.

Sono vem também do latim sómnus.

A palavra dor eu nem preciso de olhar no dicionário. Vem do latim DOLORE, caindo o L (característica básica do português, queda de L intervocálico) ficando do or e, por fim, dor.

Sabem porque eu sei de tudo isso?

A etimologia do meu torcicolo é a junção da cadeira dura com a mesa baixa e com os livros que tenho na minha escrivaninha desde sábado por causa da minha prova de amanhã.

Espero que o resultado final venha do latim 'successus,us 'entrada, abertura; aproximação, chegada, vinda; bom resultado, bom êxito, bom sucesso'.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Bom dia


É primavera. Estou em Budapeste. Apesar do tempo livre para dormir até mais tarde os primeiros raios da manhã andam me acordando às 7h da manhã. Adoro! Da janela lateral do quarto de dormir entram os raios de luz do meu bom dia. Junto dos seus, também brilhantes, olhos amarelos, acordo feliz. Ininterruptos dez bons dias. Uma mistura de sonho bom com realidade boa. Mas hoje foi diferente.
Eu sonhava. Não lembro o quê. Só lembro que algo começou a me incomodar, mas ainda estava embriagada de sono (?) para perceber. Não era o sol me acordando; aquele incômodo era ruim e aguçava um outro sentido. O sol não estava ali. Ainda? Não mais? Será que eu havia dormido demais? Culpa da vinho de ontem à noite? Não. O que aquele incomôdo aguçava era a minha audição. Música. Acordo. Eram 6:45h da manhã.
Quando consegui dar por mim sentada à beira da cama, ouvindo uma música popular húngara no volume máximo às 6:45h da manhã de uma sexta-feira, ri. Me lembrei da nossa viagem ao Brasil, há pouco mais de 3 meses. Eu me lembrava e ria. O Radek amou tudo, claro. A comida principalmente. Dentre poucas coisas que, digamos, o incomodaram, a principal foi o barulho. Não chegou a se tornar um problema; ele acabou se acostumando e não queria ir embora. Mas no começo foi visivelmente perturbador para ele. A festa de amigo oculto com o funk a 3 milhões de decibéis; as reuniões familiares com 30 pessoas juntas falando, berrando e gesticulando ao mesmo tempo a 90 milhões de decibéis; o passeio pela praça principal em Prado, na Bahia: juntando-se um trio elétrico, um mini-trio elétrico, 5 carros com seus super-ultra-mega-power-autofalantes ligados - AO MESMO TEMPO - é impossível calcular a imensidão de decibéis. E também as duas noites de sábado em que ele acordou assustado no meio da noite quando alguém passou na rua com o som potente do carro no máximo, ecoando por toda a parte. O Radek não é um fresco chatinho. E, apesar de ser músico, tanto barulho assim nunca fez parte da vida dele. E mesmo eu, quando cheguei ao Brasil depois de dois anos fora, estranhei um bocadinho a barulhada. A verdade é que aqui, para mim, as pessoas são menos barulhentas. Bom… eram. Até aquele momento. É claro que eu fiquei com raiva. Meu! Que raiva ser acordada no melhor do sono por uma música que não gosto. Às SEIS DA MANHÃ! Mas acho que o fato de ser feriado, de o calor ter finalmente aparecido depois de um inverno rigorosérrimo, de logo depois de 15 minutos o sol ter batido na minha cara me acordando alegremente, me fez perdoar o nosso querido SOUSED (vizinho, em tcheco). Ele não estava sad. Nem eu consegui ficar. Viva a alegria que o calor do sol traz ao ser humano. Dei uma corridinha na casa de banho :), tirei umas fotos daquela linda manhã e voltei a dormir. Feliz com aquela melodia húngara a ninar a melhor das sonecas: aquela que você tira depois que acorda e descobre que pode voltar a dormir novamente.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Grump & Vândalo - O acordo ortográfico