quarta-feira, 21 de julho de 2010

1ª classe

Depois de uma semaninha encurtada, alcoolatra, quente, durchfallente e surpreendente :) em Lisboa, pego uma carona com o Pedro – o dono do ap onde eu fiquei – e me desloco ao aeroporto com, digamos assim, um aperto no cuore por estar deixando a big alface, no meio do verão, sem ter ido à praia, sem ter feito um tanto de coisas que eu queria ter feito e sem ter resolvido as coisas que deveria resolver na faculdade, por erro estratégico da operadora de turismo que compra os meus voos e que adiantou a minha passagem sem eu ter conhecimento…




A fila pro check-in, claro, gigantesca. Todos os voos para o Brasil saem a cada 2 dias, na mesma bat hora e no mesmo bat local, o que significa que você já começa a sentir o cheirinho de Brasil no ar, mesmo em solo português. Aquele fu-zu-êêê!!!! Na hora em que cheguei no check-in, o homenzinho vira pra mim e me explica, com cara de quem já está de saco cheio de dizer a mesma coisa “pra esses brasilairos”, que a mala de ida para o Brasil só pode ter 23kg, e não 32kg como quando se sai do Brasil, e que portanto, como eu tinha 28kg, teria que pagar excesso de bagagem. Como eu tinha uma mala de mão vazia, perguntei-lhe se eu podia dividir, ele disse que sim, e lá fui eu pro cantinho cheio de outras pessoas fazendo a mesma coisa. Tira trem, põe trem, vou toda feliz pro guichê entregar as malas. Horas depois percebi que, na confusão, esqueci no carrinho duas cópias do quadro Der Kuss, do Klimt. Quase fui assassinada pela minha própria mãe por causa disso.

No caminho para os detectores de metal deparo-me com o quê, com o quê? Fila. Claro. Alguns minutos até que 1 mulher verifique todos os cartões de embarque, ela vira pra mim e diz: “A menina pode se dirigir ao meu colega ali atrás à sua esquerda.” “QUÊÊÊÊ?”, penso eu, “Por quê? O que eu fiz de errado?” Quando chego no segundo homenzinho, pergunto: “ Mas porque tenho que entrar por aqui?” Ele: "Deve ser porque viaja muito ou talvez porque tenha milhas…” Resposta duplamente negativa, sigo por um corredor, completamente vazio, até chegar naquela máquina imensa de detectar terroristas, também vazia e com uma senhorinha sorrindo pra mim (milagre!): “Bom dia! Tem computador?” Quando olho à esquerda “do outro lado da porteira” uma fila giganteeeeeesca de pobres mortais à espera do detector. Em minha mente brilha reluzente a palavra VIP. Me sentindo a Gisele Bündchen (e com havaianas nos pés) cruzo o detector de metais como ela cruzaria a passarela, pego minha mochila e sigo fina pelo free shop.

Na hora do embarque, achei que ia igualmente VIP, claro. Vi a filinha micro da 1ª classe e então parei atrás de dois executivos de terno e gravata. Quando a mulherzinha veio, perguntou: “Tem algum cartão?” Com o nariz empinado, disse: “Não, não”. “Ah, então pode, por favor, se dirigir à outra fila”. Penso, rapidamente: “Mas aquela é a fila dos mortais…” E ela: “Mas pode se sentar, se quiser, ainda vai demorar um pouquinho para embarcar”. E aí vi os meus colegas executivos seguirem pelo corredor, finos…

Uns quinze minutos depois, me recusando a ir para o fim da fila, ouço a mulherzinha no microfone dizendo que os passageiros da carrocinha deveriam embarcar primeiro, e a minha sela fazia, claro, parte deste seleto grupo. Entro, feliz, na frente de muitos colegas mortais, passo o cartão de embarque pela luzinha e sigo pelo corredor antes da porta da aeronave.

Ainda na fila no derradeiro corredor, ouço vozes: “Passageira Raquel Mendonça! Passageira Raquel Mendonça!” Já me sentindo culpada, me viro para ela e confesso: “Sou eu”. “O seu lugar mudou, agora é 5J”, pega o meu cartão de embarque, rasura, devolve e vai embora. Eu, já na porta do avião, nervosa, quase tropeço na entrada, entrego o cartão ao aeromoço, que me diz: “Seja bem-vinda! Pode seguir até o fim e depois à esquerda.” Meio zonza, e como sempre lerda, penso: “Mas o lado esquerdo do avião é a primeira classe…” Para confirmar, pergunto ao próximo aeromoço, no fim do corredor, que me indica o lado esquerdo com o braço, e me dirige ao assento, ou melhor, à cama 5J. “Este é o seu assento”. Começo a rir, sozinha, como uma caipira das Minas Gerais que nunca viu uma poltrona tão grande na vida. “Nóssasenhora…”, penso, em bom e velho minerês. Sento na cadeira, a aeromoça me traz uma taça de champagne, uma toalhinha quente para relaxar, “um jornal ou revista, senhora?”, a carta de vinhos, e um kit “boa noite”, com aquele trem de pôr nos olhos pra dormir (ótimo, esse meu conhecimento geral!), tapa ouvidos, hidratante, escovas de dentes e meião. Boa noite, cinderela. Baixo meu encosto, levanto a parte de baixo da cadeira, pego o travesseiro, cobertorzinho, viro pro lado e sonho com o salmão do almoço que logo, logo, virá. Obrigada, operadora de turismo, continue errando assim…


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