terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Você acha o Português complicado?

Desculpem! Eu sei que estou há um bom tempo ausente... tenho tentado escrever textinhos, e até consigo por alguma coisa no papel, mas não tenho conseguido concluir. Mas prometo providenciar algo para escrever em breve!

Enquanto isso, fiquem com este artigo que descreve um pouco da língua daqui, e que segundo Chico Buarque é "a única língua do mundo que, segundo as más línguas, até o diabo respeita".

"Retrato Íntimo de um Idioma — Paulo Rónai comenta as dificuldades de seu idioma materno, o Húngaro, considerado uma das línguas mais complexas da Europa. “Levei muitos anos até perceber as complicações de seu mecanismo. À medida que aprendia outras línguas é que me espantava com a minha”, confessa. No seu primeiro contato, o estrangeiro se extasia com a simplicidade aparente do idioma: a ortografia é praticamente fonética (ao mesmo som corresponde sempre a mesma maneira de grafá-lo). Além disso, as palavras não têm gênero (masculino, feminino ou neutro), o que deixa todos os adjetivos com uma única forma, já que inexiste a necessidade de concordância. O quadro dos tempos verbais é quase miserável: só existe um passado e um presente, mais alguns tempos compostos. Cessa aí, contudo, essa singeleza enganadora. Há um feroz sistema de declinações, com quase o dobro das declinações do Latim. Vejam o inferno húngaro, nas próprias palavras de Rónai:
“A inexistência dos tempos verbais é também compensada, e rijamente, pela abundância de outra espécie de recursos. 0 húngaro, como o russo, pouco se preocupa com a correlação dos tempos de um período, mas é cioso de marcar nitidamente o aspecto de cada ação considerada separadamente. Ele não sente a diferença entre escrevi, escrevia, tenho escrito, escrevera, tinha escrito, ações que se confundem a seus olhos num vago passado írtam; mas quer saber as circunstâncias em que a ação foi realizada: se a pessoa escreveu sob ditado ou copiando, se em folha solta ou num livro, com ou sem intuito de guardar a anotação, se encheu a folha ou não, se o que escreveu era substancial ou acessório, se o tirou de uma ou de várias fontes… e, conforme o aspecto dominante, usará o passado írtam precedido de prefixo ou provérbio diferente (leírtam, átírtam, beírtam, felírtam, teleírtam, odaírtam, kiírtam, összeírtam…) ou, como diríamos nós, empregará outro verbo composto. A riqueza de matizes destes e de outros prevérbios é espantosa: um deles (ki-), junto ao mesmo írtam, indicará ainda que o escritor deu tudo o que podia dar e está esgotado; outro (el-) que o assunto que tratou ia ser tratado por outro autor; um terceiro (agyon-), que morreu de tanto escrever.
“Os adolescentes húngaros não sabem o que são aspectos do verbo, porém os manejam com instintiva segurança; ao passo que o estrangeiro perde completamente o seu latim sem ter adquirido o húngaro dos outros. Tanto mais que os mesmos prevérbios associados a outros verbos indicam aspectos inteiramente diversos: assim, se fel-, seguido de escrever, indica que se escreve para guardar a anotação; de ler, que se lê em voz alta; de viver, que se come tudo o que se tem; de olhar, que se olha de baixo para cima; de chorar, que se explode num choro convulso; de citar, que se evoca um morto; de cobrir, que se descobre; de dar, que se remete uma coisa pelo correio, ou que se denuncia alguém, ou que se abandona uma partida; de tomar, que se apanha uma coisa no chão, ou se admite um empregado, ou se leva a sério uma observação; e, por cúmulo, às vezes não exprime nada disso, apenas o acabamento da ação.
“Se essa riqueza na expressão dos aspectos constitui fenômeno surpreendente para os latinos, não perturbará sobremaneira um alemão ou um russo, que conhecem na própria experiência lingüística o uso dos prevérbios, fonemazinhos perversos que, sem chegar a ser palavras, freqüentemente se soltam do verbo, às vezes até para substituí-lo de vez; mas germânicos e eslavos perdem todo o à-vontade ao tomarem conhecimento da existência de uma conjugação “transitiva” e outra “intransitiva” (denominação imperfeita, pois a segunda se usa também transitivamente, apenas com objeto indeterminado), e ficam perplexos ao descobrir que as formas verbais podem refletir a pessoa não só do sujeito, mas também do objeto direto — o que faz que nas frases “Eu amo uma mulher”, “Eu amo as mulheres louras” e “Eu te amo” se usem três formas diferentes do verbo szeretni(“amar”): szeretek, szeretem, szeretlek.”
RÓNAI, PAULO. Como aprendi o português, e outras aventuras, 2.ed.rev. Rio de Janeiro, Artenova, 1975."

Retirado daqui

4 comentários:

  1. Que coisa, hein! Nunca imaginei que isto pudesse existir, agora compreendo minha amiga alemã e suas dificuldades em falar o português. Diga-se de passagem com muito mais sucesso que eu (desisti logo de aprender o alemão).

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  2. oi pat!!! não desiste do alemão, não!! é tão lindo, e com o tempo vc vai pegando o jeito! agora te digo que eu mal comecei o húngaro e já desisti hahaha

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  3. Primeira coisa: eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!!! Estava com saudade do Koiné!!

    Segunda coisa: quem aprende inglês, alemão, espanhol e tcheco, TEM que aprender húngaro.

    Cusonom!!!! E szeretlek!!!

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  4. Vim aqui retribuir e visita e dizer que morri qdo vi que você mora em Budapeste!!!! Eu quero muito conhecer. ;)
    Bjs!

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