quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um só é quando não é




“Ele era alto e tinha o aspecto esportivo de quem passou a vida no campo, e ela, uma mulherzinha miúda e enérgica cuja maneira de falar, o tom suave, o exagero nos diminutivos e o sotaque do meu velho bairro de Miraflores me deixavam nostálgico. Ao ouvir sua voz, senti como havia passado o tempo desde qeu saí do Peru para viver a aventura europeia. Mas conversando com eles, confirmei também que seria impossível voltar para lá, voltar a falar e pensar como os pais de Juan falavam e pensavam. Seus comentários sobre o que viam em Earl’s Court, por exemplo, mostravam de maneira bem explícita como eu tinha mudado em todos aqueles anos. Não era uma revelação muito animadora. Eu deixara de ser peruano em muitos sentidos, sem dúvida. Mas o que era, então? Tampouco chegara a virar um europeu, na França nem muito menos na Inglaterra. O que era você então, Ricardito? Talvez, aquilo que Mrs. Richardson me dizia nas suas zangas: uma coisinha à-toa, apenas um interpréte, alguém que, como gostava de nos definir meu colega Salomón Toledano, só é quando não é, um hominídeo que existe quando deixa de ser o que é para que, através dele, passem melhor as coisas que os outros dizem e pensam.”

Mario Vargas Llosa, Travessuras de Menina Má

2 comentários:

  1. Ando a ler esse livro. As aventuras de Ricardito e da menina má estão muito bem escritas. Estou a gostar muito.
    Só este pequeno já dá tanto que pensar, não é?
    Bjs

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  2. Só este pequeno trecho, claro!

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