sexta-feira, 8 de julho de 2011

Adequação

Eu acompanho um site muito interessante, chamado Brasil com Z, onde vários brasileiros escrevem com frequência sobre as experiências que têm morando fora do Brasil. É interessante porque em geral um tema é apresentado, e várias pessoas escrevem o seu ponto de vista, de acordo com suas vivências e, claro, do país onde vivem. A bola da vez foi aquela perguntinha que sempre, SEMPRE, surge na boca das pessoas que ainda estão no Brasil quando conversam conosco, pobres imigrantes por esse mundo a fora: “E você volta pro Brasil quando?”

Eu confesso que nas primeiras vezes eu respondia com uma certa vergonha, porque na verdade eu sempre achava que essa pergunta era uma forma de as pessoas mostrarem que se importavam comigo, que queriam que eu voltasse, pois me queriam por perto, e que eu, ingrata, estava longe. Mas hoje não penso mais assim. O tempo foi passando, eu fui ficando, e há quase um ano fixei residência em Budapeste, na Hungria, com poucas chances de retorno. E então percebi que essa pergunta é agora feita como “encheção de linguiça”, sabe? Quando não se tem nada pra falar. Porque aquelas perguntas vazias tipo “e aí?”, seguido do olhar inquisidor de cima a baixo, é insuficiente quando se trata de uma pessoa que você não tem o controle visual. Falta assunto. Então eu conclui que aquelas perguntas do começo significavam algo como “vc vai fazer parte do que nós somos aqui, ou vai abandonar o barco?”

As razões pelas quais eu abandonei o barco são muito comuns, acho. No começo tudo era um sonho, depois o deslumbramento, num certo momento mesmo a decepção, e a vontade de mudar os desapontamentos foram me “forçando” a ficar, a não desistir. Até que um momento as duas realidades se encontraram, e a decisão foi inevitável: lá ou cá? Onde sou menos estrangeiro? Onde me sinto melhor?


Para Budapeste eu vim foi por causa do Radek, mesmo. Mas essa é só uma das razões. Outra dentre as principais que influenciaram na opção por não voltar é a não-violência. E olha que a Hungria é um “país de leste”, foi comunista e ainda se vê MUITO atraso social em todos os sentidos, considerado perigoso (e bicicletas e telefones são roubados como em qualquer outro lugar do mundo). Mas você pode voltar pra casa de madrugada, sozinha, bêbada, de ônibus, e ainda cortar caminho pelo parque na frente de casa e nada, absolutamente nada, acontece. Não tem a violência gratuita, não tem constrangimento, não tem abuso humilhante. Outros pontos como a saúde, que definitivamente funciona muito bem mesmo sendo gratuita; o acesso à cultura, à diversão, à viagens, às línguas e à outras formas de pensar com inenarrável certeza é melhor. Um dos textos do blog mencionou o fato de convivermos uns com os outros de maneira igual, sem diferenciar - tanto como se diferencia no Brasil - a faxineira, o taxista, o garçom, o engenheiro, o professor e o doutor. Não tem um abismo entre classes sociais. Isso é também muito enriquecedor. Mas nunca posso deixar de lembrar, claro, que os preconceitos e problemas são parte do ser humano, não de um país ou nacionalidade, e que nem aqui nem aí as pessoas estão perto de ser perfeitas.

Mesmo com tanta coisa boa, ser imigrante é muito difícil. Muitas portas são e permanecem fechadas. Você se sente sozinho. Você é muitas vezes invisível. (olha o paradoxo aí, minha gente!) Mas acho que o que eu mais gosto, e acho mais fácil, é o fato de poder viver a minha vida do jeito que eu quero, sem o controle, sem o olhar julgador do outro que existe no Brasil: e que vira e mexe reaparece em perguntas irônicas como a do assunto deste post, e de outras como “e vocês não vão se casar, não?” (outra top 10 pergunta na lista de “não temos mais assunto”), “e vocês não estão pensando em filhos?”, ou seja, você vai mesmo viver dessa forma europeia despreocupada quase-hippie, tão distante dos nossos padrões estabelecidos?

Se eu não sinto falta de nada? Claro. E não é só da família, de pão de queijo e guaraná. Mesmo do controle dos outros a gente sente falta, ou melhor, a gente acha estranho não ter, afinal foram 23 anos nesse habitat. Falta de sol, de sorrisos, de piadas. Mas num contexto total, preciso de estar longe dessas coisas para estar bem comigo. Aqui, longe do Brasil, eu consigo ser aquilo que sou, sem medo. Ou sem tantos medos, diria. Porque,como já falei, tudo aquilo que aprendi, os conceitos que vivi durante 23 anos da minha vida não sumiriam da noite para o dia. Só que aqui tive a oportunidade de desconstruí-los, de os ver por um outro ponto de vista. Pois viver fora, longe do que você considera seguro, abre a visão de mundo, abre a capacidade de perceber que padrões nem sempre são adequados para todos, que a generalização é burra e que você não tem obrigação de viver daquela forma ditada.

Isso significa que hoje optei por ficar aqui, mas eu nunca disse que nunca mais volto. A opção fica aberta como fica aberta também a ida pra qualquer outro lugar do mundo. O Brasil tem suas muitas maravilhas, e não quero e não vou nunca negar que faço parte disso também. Mas também é diferente de somente. E opção é para mim oposto de padrão.

A verdadeira razão pela qual não voltei chama-se adequação.

__

Leia aqui & aqui os posts do Brasil com Z que mais gostei.

2 comentários:

  1. De todos os seus textos, o mais sincero que já li. Sensação de soco no estômago, mas também, de paz. Vi você, finalmente, falando abertamente sobre essa sua escolha. Você não abandonou o barco. Você optou por optar. Parabéns pela coragem. Orgulho de ser sua irmã! Todo mundo que te ama deveria ler esse texto.

    Agora (na minha versão), as vantagens, de se ter uma irmã que mora na Europa:
    - Primeiro de todos: contar pra todo mundo que minha única irmã mora na Europa (é super chique!). Todo mundo faz uma cara assim: "noooossa!!!!". Hahahahaha, é hilário.
    - Ter um cunhado tcheco rock star e acompanhar de perto ele aprendendo o português; é lindo.
    - Não passar aperto no estrangeiro, já que ela é poliglota (incluindo aprender palavrões nas mais variadas línguas; e até passar vergonha, pq quem aprende quer falar né?)
    - Receber por email receitas originais de chucrute e sopa Goulash, traduzidos, com dicas da culinária local.
    - Receber fotos da sua irmã tomando cerveja tcheca em plena terça-feira.
    - Não pagar hotel em Budapeste. Rá!

    ResponderExcluir
  2. Gosto de ver seu blogue se tornando no "imigrante sofre" rssss quero tanto voltar pro meu (não pro imigrante) mas ando tao preguisçoso... sem inspiração...

    Sobre o post, ainda me culpo com essa pergunta, mas acho que não consigo nunca mais viver no Brasil. Adoro meu país (acho tao demagogica essa frase, mas adoro mesmo) mas aquela gente alienada é o que mais me irrita, e me custa muito assumir isso.

    Beijos
    WEll

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.