quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dicionários

Eu li um post do prof. Claudio Moreno na sua coluna que eu adoro, onde ele fala que levaria um dicionário para uma ilha deserta. Dá várias razões para tal, mas para explicar a razão primordial (hahaha, rimou) cita W. H. Auden, que também escolheu o pai dos burros como companhia:

“...é um livro que nunca acaba, pois mantém com o leitor uma relação de absoluta docilidade, permitindo que se comece em qualquer página, em qualquer direção, inclusive de trás para frente, em infinitas possibilidades de leitura.”



Eu assino embaixo. Olha que lindo dizer que a relação é doce! Eu tenho uma amiga, a Ju, que me disse outro dia, enquanto tomavamos um vinho numa cantina italiana de frente para o Rio Danúbio, que ela gosta de descrever sabores com adjetivos físicos, como por exemplo “esse vinho é duro” porque parece mais inteligente (risos). E foi essa sensação de inteligência que o autor inglês me passou quando o resolveu dizer que a relação do dicionário com o leitor é doce. Porque é verdade. Somente alguém doce é capaz de dar oportunidades mil para que você se sinta “em casa”, como um dicionário faz. Você pode simplesmente pegar uma palavra e aprendê-la, e começar a usá-la, se você quiser. Ou, então, aprender e não usar, mas ouvi-la depois de uns dias e entender. Para mim, fascinante.

Eu lembro que uma vez, devia estar na 8ª série, fizemos um trabalho sobre vocabulário e aprendemos várias palavras, mas uma em especial eu nunca esqueci (porque custei para entender), e sempre rio quando a escuto ou uso, porque sempre me lembra aquele dia, na casa de uma colega que morava ao lado do colégio, onde passamos um dia inteiro fazendo um teatrinho com várias palavras. Mas só essa ficou marcada (mas confesso, que essa babel linguistica, na qual me encontro, tive que pensar uns 15 minutinhos para lembrar qual palavra é. E isso tem acontecido tão regularmente na minha vida, quando falo qualquer língua, que acho que o alemão já está me visitando hahaha): a bendita da palavra é refutar. Mas acho que não é uma palavra que utilizo na minha vida e, sinceramente, tenho que pensar duas vezes para po-la numa frase.

Outra lembrança que me vem quando penso em ler dicionário é (e, meu Deus, será que a medida em que envelhecemos vamos nos lembrando só do passado longinquo?) dos almoços de domingo, ou cafés da tarde na casa da minha avó. Ela sempre, sempre, tinha um exemplar desses Aurélios grossões próximo ao telefone que ficava na sala onde ficava a mesa de almoço e, a qualquer dúvida surgida no meio das conversas de almoço, lá vinha ela com o livrão em cima da mesa. E depois de todos os pratos e vasilhames recolhidos, o paizão ficava em cima da mesa, um convite à abertura. Eu lembro de ficar olhando umas palavrinhas lá, sempre ríamos de coisas nunca antes ouvidas, e também foi em uma dessas que descobri o significado do meu nome, que odiei; ovelha mansa.


A mesma relação interessante se dá quando aprendendo uma nova língua. Pegar um dicionário, escolher uma palavra e dali seguir pelas suas raízes, variações, possibilidades de uso e sentido, e ainda as possíveis criações vindas dela é fascinante. É inclusive uma forma de ensinar. Aumenta não só o vocabulário mas leva a outros mundos, crenças e visões. Existe realmente um mundo infinito dentro de um dicionário.

Vocês já checaram a entrada para a palavra “tempo”? No Priberam online diz-se, entre outras, “Série ininterrupta e eterna de instantes”. Acho simplória essa definição. Série ininterrupta, eterna, incontrolável, rápida e verdadeiramente insuficiente-para-tudo-o-que-queremos-fazer de instantes? Seria mesmo definível? Peguem seus dicionários...

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